13/07/2010

Dramaturgia Contemporânea

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Dizem da crise da literatura. Embora eu me aventure nos caminhos da prosa isso não me preocupa, sinceramente. Acredito numa crise constante de modelos, mal-estar diário e inerente à dinâmica de nossa própria vida, da humanidade. Estamos em crise desde que nosso primeiro ancestral saiu da água e – é possível – até debaixo d’água seu embrião já incomodava a quem de direito.

Um parêntese

(quando penso na evolução humana o que mais me impressiona é que o primeiro ferro utilizado veio de meteoritos que caiam na terra. Ferramentas eram fabricados com esse, então, raro metal. Depois descobriram que ele existia na terra em quantidade absurda. Olhar para o céu e esperar aquilo em que estamos sentados em cima tem sido a marca de nossa caminhada)

Acabou o parêntese

Depois do parêntese digo de uma crise maior, que realmente me incomoda. A da dramaturgia. Não digo da falta de dramaturgos, pois existem. Mas do impacto de mudanças na mecânica do teatro, da ciência da encenação e sua influência no texto do teatro.

Um resumo para melhor compreensão:

Até o século XIX o texto impulsionava o teatro. Era o dramaturgo quem determinava a dinâmica cênica, ele colocava seu traço, a sua escrita, no centro da encenação.

No início do século XX, após domínio inconteste do dramaturgo, temos a ascensão do encenador, do diretor do espetáculo. Ele vai ganhar força no espetáculo tornando o texto pretexto para a encenação. A peça teatral passa a ser criação do diretor. A grande exceção a este modelo é a tradição dos dramaturgos do absurdo, talvez a última grande contribuição da dramaturgia para a literatura em geral.

Depois, a partir da segunda metade do século XX até hoje, o ator surge como criador, às vezes prescindindo totalmente da figura do diretor ou aceitando seu trabalho como uma espécie de harmonizador para unidade da encenação. O texto, nem sempre dramático, é ponto de partida para o fazer teatral.

Não obstante a beleza que muitos espetáculos seguindo tais dinâmicas conseguem, algo é fato: o dramaturgo hoje tem que se contentar com seu texto dilacerado na montagem ou se tornar uma espécie de roteirista de plantão na construção do espetáculo.

Evolução do trabalho

Assim, o dramaturgo perde a possibilidade de ver a evolução de seu trabalho, já que não existe uma dramaturgia com sua marca. Seu texto chega aos olhos do espectador pelos olhos de um conjunto de fatores que tornam seu texto ingrediente de algo maior que o esconde.

Não há crítica aqui. Não proponho a involução da ciência da encenação, mesmo porque diversas formas de teatro de várias épocas convivem ainda hoje, este novo teatro, nem tão novo pelos parâmetros atuais, não é praticado de maneira predominante.

Aqui no Espírito Santo, por exemplo, em sua maior parte, os espetáculos são trabalhados de maneira tradicional, o ator decora o texto e o diretor faz as marcações. E nem por isso produzimos grandes dramaturgos. Tem sido, com raras exceções, um teatro estéril, velório da criatividade.

Eis o ponto

Eis o ponto. Nós, dramaturgos (contemporâneos, para usar um rótulo), não queremos um teatro que utilize na encenação nosso texto integralmente. Precisamos da contemporaneidade no trabalho do encenador, ator e outros especialistas do espetáculo para a realização da essência do teatro. Mas devemos ter em vista que dramaturgia é também literatura e como literatura deve se utilizar dos vários meios disponíveis para chegar ao público, tais como blogs, livros, revistas e leituras públicas.

Um exemplo para o mal e o bem

Para ilustrar. Em 2009 a Secult-ES (Secretaria de Cultura do Estado) lançou um edital de dramaturgia. De acordo com seus termos, eles escolheriam cinco dramaturgos pela qualidade dos textos e depois estes criadores teriam “aula” com três dramaturgos “nacionais”, sendo escolhidos dois ao final, que deveriam apresentar planilha de montagem de espetáculos com uma ninharia para realização de cinco apresentações da peça teatral que escreveram. Erro crasso: confundiram fomento a dramaturgia com montagem teatral. Eu me neguei a fazer parte disso e entrei em outro edital da mesma Secult, o de literatura, alcançando premiação na categoria romance.

Agora, em 2010, a Secult acertou a mão, fazendo algo coerente. Colocou dramaturgia dentro do edital de literatura, como gênero literário. O vencedor terá sua peça publicada em livro. Ótimo, pois existem outras formas de fomentar a montagem, como as leis de incentivo municipais, Funarte ou, quem sabe no próximo ano, um edital específico para montagem de espetáculos da própria secretaria.

Imprima-se

Acredito que esse é o caminho de redenção da dramaturgia. A publicação em livro ou outros meios disponíveis. O dramaturgo precisa pensar também no público leitor ao realizar seu trabalho. Que a peça seja montada de 20 formas diferentes por cada elenco, mas o suspiro original está ali, disponível para o leitor/espectador.

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Ps.: A editora Cousa está preparando um evento de dramaturgia para o final do ano. Em breve mais informações.

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Uma resposta to “”

  1. Ei Saulo.
    Fiquei meia hora pensando em uma frase sua: “Olhar para o céu e esperar aquilo em que estamos sentados em cima tem sido a marca de nossa caminhada.”

    Você falou da evolução da dramaturgia e eu gostaria de ressaltar uma nova onda que não foi mencionada por você. Essa nova onda começou com a Comédia Dell’arte com as companhias que começaram o teatro de improviso, com um breve enredo.

    Eu faço parte desse movimento e vejo nele um exercício para dramaturgos e uma libertação para atores.

    Concordo com o seu texto e acrescento. Sou capixaba e artista e vim do Rio de Janeiro há 6 meses de volta para o Estado. Nesse tempo venho tentando contato com o teatro capixaba que se mostra sempre fechado em sua própria turma.

    E para finalizar agradeço por esse espaço no seu blog. Sempre me atualizo aqui e me sinto feliz por alguém tão coerente pensar em arte capixaba com tanto carinho. Parabéns!

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